Parabéns pra ela

Foi aqui que eu reaprendi a dirigir e passei a dirigir frequentemente, sem depender de ninguém. Aqui eu fiz amigos, grandes amigos, amigos mais chegados que irmãos que estarão comigo na eternidade, e lá na eternidade não haverá sotaque, nem nariz entupido paulistano. Aqui eu aprendi o que é ser esposa, ter uma casa para cuidar. Aqui eu me desenvolvi profissionalmente. Aqui eu descobri o que é ser Igreja e trabalhar para Deus de verdade. Aqui eu aprendi a amar o bairro que eu moro. Aqui eu descobri o que é viver numa cidade que tem inverno. Aqui eu me certifiquei de que comer realmente é uma bênção. Aqui eu descobri que têm muitas pessoas com muito, muito dinheiro. Aqui eu descobri que o trânsito de SP não é o pior da face da Terra. Aqui descobri que é possível ser uma grande cidade e ter o mínimo de organização. Aqui descobri o que é uma pizza boa e que é melhor com azeite do que catchup. Aqui descobri que não há o menor problema em você ser perdido na cidade em que mora. Aqui descobri que tem gente que se acha só porque mora aqui. Descobri que não faz a menor diferença na vida de ninguém ser uma cidade em que se você quiser tem um restaurante grego aberto às 3h da manhã. Aqui vi meu marido ter grandes oportunidades profissionais e descobri que aqui se concentram grandes oportunidades. Aqui descobri que gostava mais da praia do que imaginava. Aqui descobri que o blush tem seu valor nessa vida. Aqui descobri o que é ser mãe, aprendi como é ser mãe de dois paulistanos e ouvir o meu filho falar com o sotaque que eu tanto zoei. Aqui aprendi o que é ter responsabilidades em família e acho que por isso sinto tanta saudade do Rio, porque lá minha vida nunca teve responsabilidades de fato. Aprendi o que é constituir uma família. Aqui vi o agir de Deus muitas, muitas e muitas vezes. Aqui eu tenho sido muito feliz e realizada em todos os sentidos. Foi para cá que Deus me trouxe, sem eu pedir, sem eu se quer ter cogitado a possibilidade, há quase 9 anos eu me mudava definitivamente para SP. Parabéns para ela que me presenteou com paulistanos incríveis, sendo meus filhos os principais. Tenho um carinho grande e especial por SP, porque a correria daqui em boa parte é por conta das minhas escolhas e não totalmente culpa da cidade em si. É uma questão de treinar o olho e enxergar o que é bom. E aqui é bom!

Sempre difícil voltar

rio“Aqui faz muito calor, usar roupa social nesse calor infernal ninguém merece. Sem contar que você está indo ao trabalho e a galera está indo à praia. 40 graus ser normal no verão é puxado.

As pessoas que prestam serviço parecem ter má vontade, que preguiça…Tem que ficar implorando para o atendente me olhar e eu conseguir fazer meu pedido.

O trânsito de SP é muito melhor que o daqui, há uma ordem pelo menos. Ninguém me buzina porque decidi não fechar o cruzamento. As pessoas usam seta. Não é perfeito lá, claro, mas é mais organizado e isso ajuda muito.

Se eu morasse aqui, não ia ter todos os sábados livres, logo não iria à praia todo fim de semana. A vida real não são férias. Diego ia trabalhar o mesmo tanto, eu ia trabalhar, ter que buscar as crianças na escola, ir ao mercado, fazer tudo o que faço em SP. Eu não ia morar na casa do meu pai.

Há quase 8 anos é a mesma coisa quando tenho que voltar. Acho que sempre será. Porque como nunca morei no Rio depois que casei, sempre terei a dúvida, a quase certeza, de que se morasse no Rio teria mais qualidade de vida e uma vida menos atropelada.”

É isso tudo o que penso enquanto estou lá, os argumentos que uso para minimizar a vontade que eu tenho de ficar. Se eu estivesse que escolher onde morar, teria muita dúvida. Com tudo a gente se acostuma nessa vida, até a morar em SP. Só queria aproveitar mais os dias e sempre ponho a culpa na capital paulista, mas estou começando a chegar a conclusão de que a culpa nem é toda dela.

Foi difícil voltar dessa vez. Mais do que eu gostaria, porém o primeiro dia em casa não foi tão traumático quanto imaginei que seria. Pelo menos isso.

 

 

 

 

 

Sendo feliz em SP

SP-RJMoro em SP há 7 anos praticamente, cheguei aqui em Julho de 2008 e passou tão rápido esse tempo. Sinto que passou rápido para as outras pessoas também, porque até hoje respondo a pergunta “Conseguiu se adaptar a SP?”

E minha resposta é sim, me adaptei. Até porque, 7 anos depois se ainda não tivesse me adaptado ia ser bem infeliz. Mas confesso que não foi fácil, nem um pouquinho fácil. O fato de ter feitos amigos aqui fez com que essa adaptação fosse melhor, meus amigos são todos da igreja e a maioria não é da capital mesmo, estão na mesma situação que eu, não tem família morando aqui. Ou seja, somos a nossa família e isso muitas e muitas vezes é consolador.

Vou ter que confessar que hoje teria dificuldades em sair de SP, uma partezinha por causa da cidade porque aqui as coisas funcionam, o caos é organizado, as pessoas sabem se organizar em fila. E a maior parte é por causa da igreja, das pessoas que passaram a fazer parte da minha vida como se eu nem lembrasse mais como é viver sem elas.

Para achar SP bonita tem que treinar o olho, não tem beleza natural, não tem montanha e nem mar. Tem rio, mas ele é tão fedido que nem dá para achar alguma coisa, porque a gente se concentra em prender a respiração e não em admirar a paisagem. Têm os parques, mas até hoje não consegui me entender muito com eles, são bonitos sim, mas nada que faça da cidade uma cidade maravilhosa (rs). Com o treino, meu olho consegue achar uma rua bonita, as pessoas são elegantes, as pontes também ajudam a compor um visual e numa cidade onde o sol não é rotina, um céu bem azul tem muito mais valor.

Aprendi a dirigir aqui, um lugar giga, onde as pessoas não sabem nome de ruas direito (nem tem como!); onde os quarteirões não fazem necessariamente um quadrado, se você perdeu uma rua pode ser que para pegá-la de novo tenha que fazer um retorno sei lá onde, e não simplesmente pegar a próxima rua que dá mão e contornar o quadrado. Mas aqui ninguém fecha o cruzamento e isso é quase impossível no Rio, a galera buzina um pouco menos também.

Não chamo sanduíche de lanche, lanche é tudo, é o combo, a promoção com bebida e batata; nunca tive coragem de comer a pipoca doce daqui, ela é rosa, uma cara de que é de plástico; não me acostumo e nunca me acostumarei a cantar “É pique” no parabéns ao invés de “É big”, continuo no “É big mesmo”. Acho super normal levar 40 minutos para chegar a algum lugar, é a média. Eu começo algumas frases com “Então”, eu falo CÊ- Ê – TÊ e não “séti” para me referir ao CET. O calor exagerado me incomoda,  e nem toda pizza tem queijo obrigatoriamente. Não é necessário explicitar que o sorvete é “sorvete de massa”, massa é macarrão, massa de bolo, de pão…tem nada a ver com sorvete, para se referir aquele que vem com um palito, já inventaram uma palavra específica: picolé.

Como o que vale são as pessoas, há paulistas que valem muito à pena. Meu filho é paulista, na mais caricata representação de um paulista, é paulistano. Como então não ter algum laço e sentimento com essa cidade? Mesmo ela nos atropelando e nos exigindo uma dinâmica que só favorece a vida individualista, é possível ser feliz e até gostar daqui. Gostar do frio quando não é exagerado, de ser bem atendido, de comer muito bem, de ver uma rua arborizada e bem cuidada, de conviver com pessoas que tem alguma preocupação em ser melhor e não sempre se dar bem a qualquer custo. Sempre carregarei a sensação de que poderia ter mais qualidade de vida, porque nunca terá algo que substitua uma praia num dia ensolarado, mas  viver na capital dos superlativos tem sua graça. Acreditem em mim!

Ah, a adolescência

Com frequência ouço uns funks no carro, dos antigos, da época em que eu ouvia diariamente, a maioria é Mc Marcinho. Para quem não conhece, um cara não muito bonito, com uma voz que impossibilita chama-lo de cantor, autor de poesias como “O pensamento é a vida/Por isso eu vivo/Pensando em você”. Mas que só tem música maneira!

Isso lembra muito minha adolescência, lembro demais da galera do colégio, da nossa rotina, das nossas saídas. Houve um período em que íamos toda sexta feira para o mesmo lugar, a Casa de Espanha, lugar minúsculo, mas onde a gente se divertia muito. Foi aí que travei quase a 3ª Guerra Mundial ao tentar (e conseguir) convencer meu pai de que com 14 anos eu já era “adulta” o suficiente para sair meia noite e voltar às 4 da manhã. Temo ser mãe de um adolescente, mas até lá tenho tempo de me acostumar com o fato. E eu mudei um pouco desde então, alguns valores não são mais os mesmos. Embora tenha sido até comportada, várias situações não me orgulho de ter protagozinado e não combinam comigo hoje.

Tinha também um lugar, meio longe da minha casa até, a Circus, que no final rolava um banho de espuma. Que coisa mais nada a ver! Caia uma espuma do teto, a gente ficava todo molhado, saia morrendo de frio, porque saíamos de short e blusinha, um tamanho de short que até hoje nem sei como tive coragem…. Ainda lembro o cheiro que tinha essa espuma. E nessa hora cantava o cláááássico “Banho de espuma é muito legal, debaixo da espuma eu vou zoando em alto astral”. Rindo aqui, porque não faz o menor sentido isso. Mas quando a gente é adolescente as coisas não precisam fazer muito sentido.

Hoje tenho contato com algumas pessoas daquela época, as redes sociais ajudam muito, e duas em especial são grandes e melhores amigas até hoje. A galera casou, teve filho, teve outro filho, mas sei que quando eles se lembrarem desse período das nossas vidas, em algum momento eu talvez apareça. Temos uma lembrança bacana em comum, que me faz dar um leve sorriso e sentir a leveza que a vida tinha naquela época: comia até explodir e não engordava nunca e com pouco esforço era bem sucedida nas minhas notas.

As coisas mudaram tanto, a leveza não é mais tão óbvia….

Sendo gringa

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Hoje cheguei mais cedo ao trabalho, porque finalmente consegui ir à reunião de oração, e como tinha algum tempo, resolvi entrar na Starbucks e tomar alguma coisa mais legal que uma média na padaria da rua. E, à medida que fui caminhando em direção à cafeteria, fui me sentindo meio turista.

Está frio em São Paulo, as pessoas estão cheias de casaco, botas, sobretudos e botas de inverno. E aquele dia cinzo, típico daqui, típico de alguns dias que eu vi em Londres (Falou a-chique-viajada-europeia). Mas esse cenário me ajudou a fazer da minha meia hora livre um momento leve e de higiene mental quase mágicos, porque tudo ali estava me fazendo sentir como se estivesse viajando.

Estava tocando uma música super estilo e o fato de eu ter que ler o cardápio e descobrir como se chama o que eu quero (porque não vou sempre lá) contribuiu para a sensação “Estou fora de casa”. Escolhi o meu capuccino e um cookie, coisa que nunca peço, mas como estava viajando, escolhi algo diferente. Ao pagar, fui à falência como se o que eu comprei, tivesse sido precificado em euros. Bem mais caro que a média servida naquela tradicional xícara branca da padaria.

“Rafaela?” Adoro eles chamarem a gente pelo nome! Recebi meu pedido, escolhi uma poltrona confortável para sentar e fiquei observando as pessoas andando na rua, as que estavam lendo ou no computador ali dentro. Eu também tinha um livro. E me juntei aos outros que liam. Que minutos mais bem aproveitados para uma manhã chuvosa e gelada de sexta-feira.

Tudo isso foi só meia hora, mas valeu tanto à pena, que parece que foi mais tempo. Quando a gente viaja, têm os olhos mais atentos ao que nos cerca, às coisas simples, qualquer café, qualquer bolinho, salgadinho, são realmente apreciados e buscando o diferente naquilo que é corriqueiro para os locais. O mais legal de viajar para mim é fazer os que os locais fazem.

E foi isso que fiz hoje, o que os locais da Vila Olímpia fazem pela manhã. Cheguei bem humorada ao trabalho, com uma alegria de turista que poderia ter sido confundida com um nativo. As coisas podem não ser novidade, da rotina, mas se a gente fizer uma forcinha, somos capazes de enxergá-las por um ângulo que torne tudo mais interessante. Eu sempre tento e hoje consegui.

 

Eu estava lá

IMG_0260Na véspera da abertura da Copa, descobri que iríamos assistir ao jogo de abertura e desde o momento que fiquei sabendo nem consegui mais pensar em outra coisa, de tanto que me empolguei. Esquematizei com as meninas (merecedoras de um texto a parte, certamente) como e com quem deixaria o Davi e pronto. Tudo resolvido, era só esperar o dia seguinte chegar.

Sempre gostei de Copa do Mundo, assisto aos nossos jogos e a outros também. Gosto do clima da galera, de conversar sobre, de vestir a camisa, mesmo não sendo uma crítica e grande entendida do assunto, não sou alienada. Gosto do evento. Não terei a chance de ver outra abertura de Copa no Brasil, em outros lugares é possível, quem sabe.. Era um momento histórico sim e eu estava lá, assistindo a tudo ao vivo e de tão perto.

A cerimônia de abertura realmente foi muito fraca, visto o que conseguimos apresentar nos carnavais da vida e no Boi de Parintins, aquilo ficou meio amador, mas sinceramente, eu nunca assisti essa parte e acho chato até. Não que eu seja indiferente a pessoas vestidas de árvore, índio e gaúchos, mas nem lembro como foram esses momentos em Copas anteriores e daqui 1 mês isso fará pouca diferença, o principal é o futebol pra mim. Poderia de fato ter sido algo que causasse um impacto maior, mais bonito de verdade, temos condições, mas não aconteceu por incompetência na minha opinião.

Achei o estádio bonito, estava tudo organizado, a chegada e a saída de metrô foram tranquilas. Mesmo meio tensa em estar na parte que ainda era provisória, pulei, gritei, xinguei (muito difícil para uma desbocada que se controla não falar palavrão no estádio…), cantei e me emocionei com aquela galera no hino. Fiz coraçãozinho com a mão pro Oscar e gritei Neymar. Nem sei onde o Oscar joga, mas era o jogo de abertura da Copa do Mundo no Brasil, como não curtir aquele momento e me divertir ali? Valeu à pena demais ter ido. Um jogo meio esquisitinho, mas gritei gol 3 vezes!

Não xinguei a Dilma, fiquei com um pouco de vergonha alheia nessa hora. Era óbvio que isso aconteceria, inevitável. Concordo que não tem cabimento a gente sediar esse evento, que nosso dinheiro deveria ter sido investido naquilo que é necessário e urgente. Concordo com tudo isso, mas senti vergonha de xingar, independente dela merecer ou não. Não entendo de política, sou ignorante nesse assunto. Assumo. Nesse aspecto sou alienada mesmo, sei alguma coisa, mas insignificante. E tenho certeza que uma parte dos que estavam xingando eram como eu, não entendem nada, mas ali queriam parecer qualquer coisa. Se o estádio tivesse sido lotado pelas pessoas ditas “carentes e desprovidas de educação” e “prováveis eleitores de Dilma”, os pseudo intelectuais iriam reclamar, apontar o dedo e dizer que isso era uma vergonha para o país e que eles eram mal educados. Mas pelo preço dos ingressos, o Itaquerão estava cheio de gente que teve acesso à educação de qualidade, grandes executivos, uma galera inteligente, mas que acha bonito e se orgulha de mandar a maior autoridade do país tomar naquele lugar. Não sei se eu estou muito Alice no País das Maravilhas, classe média perdida, mas acho que isso não é motivo de orgulho.

Mas apesar do caos instalado por conta da Copa, daqui a alguns anos eu vou dizer que eu estava lá, e vou dizer orgulhosa sim. Vou torcer para que a gente ganhe, como sempre faço e farei. Pão e circo? Talvez. Mas vou achar lindo as 6 estrelas em cima do brasão da CBF.

Saudade do que seria

Esse fim de semana me deu uma saudade do Rio, nem sei exatamente o que desencadeou essa saudade que vai e volta. Na verdade, saudade é um sentimento que sempre me acompanhou e acompanhará, porque eu gosto das pessoas, me apego a elas e, no fundo, não gosto muito de mudanças. Quando criança me mudei de Manaus para o Rio e sofri com isso, ainda sendo pequena. E, depois de casada, mudei para cá, para SP e sofri ainda mais e ainda sofro. Bem menos, mais sofro.

Tenho saudade de coisa que eu nem vivi, saudade de dividir a vida com Diego no Rio, de termos a praia na nossa rotina, de ter um apartamento na Zona Sul. Saudade de chamar as minhas amigas da escola para jantar lá em casa, ou combinar um almoço com as meninas da faculdade e ir à festinha de aniversário dos filhos desses amigos. Saudade de brincar com o Davi na areia, de vê-lo pedindo para passear na praia e pedir água de coco ou biscoito. Saudade de ir à casa da minha irmã e ficar lá horas conversando. Saudade de ir para casa do meu pai e dormir enquanto eles brincam com o Davi. Saudade de ter a possibilidade de alguém da minha família por perto para me ajudar com o Davi.

Saudades de ser uma mãe bronzeada, que usa biquíni, short e chinelo. Saudade de me envolver de verdade com a Igreja que me mostrou Cristo, saudade de saber exatamente onde comprar o que eu preciso no meu shopping preferido, saudade do meu filho crescer e ter o estilo malandrinho das crianças cariocas. Saudade da leveza das pessoas. Saudade de dividir os momentos tão únicos que tenho vivido com pessoas tão especiais para mim. Saudade dos amigos que não fiz. Saudade de ser casada e mãe tendo o Rio de Janeiro como o mais lindo cenário!

Como disse, saudade do que não vivi e nem vou viver. Pelo menos agora.