O quarto das meninas

16 dez

Eu sinto saudade de um monte de coisa e de gente e de fases. Mas não tenho saudade da minha época de solteira, e olha que na minha humilde avaliação, o saldo foi positivo. Alguns erros, mas aproveitei. Mas de uma coisa eu sempre lembro e sinto muita falta: do meu quarto na casa do meu pai e da minha convivência com a minha irmã naquele espaço, que era um super espaço, porque ele era o maior dos 3 quartos da casa.

Ali era o nosso mundo, era ali que nós perdíamos roupas penduradas no cabide e quando achávamos não dava pra usar, porque estava toda amassada e com aquela ponta marcada na roupa. Era ali que a gente ria sempre das mesmas piadas, fazia os mesmos comentários nas mesmas músicas. Acho que é dessa parte da música que eu fico com mais saudade, a gente entrava no quarto e ligava o rádio e colocava um dos nossos CDs preferidos. De manhã, enquanto a gente se arrumava para a faculdade ou para o trabalho também. E quando a gente colocava o som muito alto e o papai entrava batia na porta e dizia: “Que zorra é essa?” ou “Que rolo é esse?” (acho que ele não sabia usar a expressão “rolo” direito). Os mais tocados eram Chico, Los Hermanos, um de forró, Tribalistas, rolava funk, teve um do Fama (aquele programa da Globo) que era muito legal. E samba: Fundo de Quintal, e Arlindo Cruz sempre tocava. Algumas vezes a gente dançava. E antes de dormir eu sempre ficava puxando assunto e minha irmã falando que estava a fim de dormir, ou eu me jogava em cima dela ou acendia o celular na cara dela. Era engraçado, porque eu sempre ia bem devagar disfarçando, mas ela sempre descobria. Ela também reclamava de quando eu de manhã ficava fazendo barulho procurando meu sapato. Era ali que às vezes a gente chorava antes de dormir também, sem frescura e sem ficar forçando a barra, com aqueles blá blá blá de sentimentalismo. Durante anos, nossa TV foi meio ruim, não tinha NET e o controle não funcionava, acho que foi por isso que a gente ouviu mais música. Tanto que depois que o papai trocou a TV por uma daquelas fininhas e colocou a NET nós víamos TV no quarto. Mas aproveitei pouco essa fase, casei pouco tempo depois disso. Mas nosso quarto tinha uma extensão que era uma cadeira da mesa da sala de jantar. A gente estudava nessa mesa e os livros e apostilas e cadernos ficavam apoiados em uma das cadeiras. Quando tinha algum evento a gente tirava as coisas dali, temporariamente. Do mesmo jeito que as coisas que ficavam empilhadas na cama durante o dia, a noite elas saíam temporariamente também.

Hoje o nosso quarto está diferente, pouquíssimos livros nossos na estante. O armário é outro, bem mais bonito e maior e cheio de coisas, mas as coisas são da mulher do meu pai. As roupas de cama também são novas, bem mais bonitas que as da nossa época. Mas é inevitável entrar ali e não se lembrar daquele tempo e de tudo o que aconteceu ali. O quarto mudou, a gente também, mas eu ainda chamo ele de nosso e ainda se referem a ele como “o quarto das meninas”.

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